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quarta-feira, dezembro 28, 2011

Kael Sorrow's Live Orchestra

Taí uma coisa que eu queria fazer há tempos no blog. E, como vou me dedicar a esquematizar, reler e editar os dois primeiros Térnias, nada melhor pra servir de filler, certo? 8DD

Se tem uma coisa que eu sempre faço enquanto escrevo, é ouvir músicas. Diversas músicas, trilhas sonoras de filmes, jogos, músicas mainstream, aquelas mais bizarras, em inglês, português, japonês, ou línguas que eu nem sei quais são. Enfim, se eu tô escrevendo, eu tô ouvindo.

Não é de se surpreender que eu acabe casando algumas músicas com os temas, personagens, ou ainda, capítulos inteiros. E também não é surpresa eu acabar imaginando trailers inteiros com as músicas que escuto XD


Então, por que não fazer um apanhadão das músicas que pontuam os meus livros? (por algum motivo)


Elementals

Começando pelo mais simples, Elementals tem apenas dois temas D=

Trailer de Elementals:

Dark Empire 1.0, do X-Ray Dog - chatisse encontrar isso aqui de novo
(não dá pra ver claramente um trailer cinematográfico aqui? Com nomes aparecendo, golpes de lutas e locais imensos? =3)

Tema do Leak:

Bodies, do Drowning Pool - como mostrado no post do Leak
(nada melhor que gritaria e conversa de corpos caindo pra representar nosso querido amigo)



Flores numa garrafa de cerveja:

Flores, por enquanto, também só tem dois temas.

Trailer de Flores:

1000 Guilhotinas, do Pato Fu - favor pular os 30seg iniciais. Não achei vídeo melhor... =/
("e então pobre soldado, sem ter o que perder, pois já está condenado a morrer, diz 'não sei porquê lutei, não sei porquê morri, eu só queria não estar aqui'" é de partir a alma.
E é incrível como uma música de guerra com um twist macabro/otimista se encaixa na rotina de gente normal)

Tema do Caim (sim, é o nome de um personagem):

Cain Said To Abel, do Bloc Party
(Incrível como você acha sua banda britânica favorita cantando uma música de um personagem com o mesmo nome do seu, e ela é boa, não? =D)



Ocho:

Sim, o livro que vem depois de Aeternia é tão rebelde que até música ele já tem.

Trailer de Ocho:

Te Quiero Puta!, do Rammstein.
(Sempre acho incrivelmente engraçado esse pessoal alemão cantando em espanhol, especialmente quando são obscenidades 8DD
*idade mental de 5 anos*)

Tema da narrativa de introdução:

Hang 'em High, do My Chemical Romance




Aeternia:

E é aqui que tá o ouro. Aeternia tem muitas e muitas músicas, algumas que até me chamam para fazer alguma animação ou music video, mas em respeito ao público, ao meu tempo, e aos animadores competentes, não invisto 8DD

Mas dá pra dividir em dois grupos:

Temas de personagens:

Tema 01 do Nick (mais otimista, ou, como gosto de pensar, do Nick de Werdil):

Lugar ao Sol, do Charlie Brown Jr - particularmente não gosto do cantor, com essa única exceção. E virou música tema do meu personagem principal. Ha-ha na minha cara.

Tema 02 do Nick (mais dark, do Nick de Aeternia):

Total Immortal, original do AFI, cover do The Offspring - tentei gostar da original, mas não deu 8D
(e é incrível como passa todo o angst impotente que o Nick de Aeternia tem. "This rage I cannot let go" e pans)

Tiago:

O Dia que Não Terminou, do Detonautas - eu sei, é velha e esquisita, mas colou no Tiago.
(curioso é pensar que ela é uma música feita pra acidentes de carro. Imagino o Tiago comparando a vida dele com um car wreck e percebendo que não é tão diferente o__o")

Alexandre:

Song 2, do Blur - que vai sempre se chamar WooHoo na minha cabeça, mas sejamos certos.
(pode falar que é overrated, famosinha e mainstream, mas casa com o Alexandre. Tem uma batida otimista, mesmo falando "I need you" a cada 15seg, que passa bem todo o afeto latente que ele deseja)

Átila:

Rescue Me, do Zebrahead - kudos ao Alessandro por ter me passado essa.
(pode parecer uma música meio vulnerável e impotente num primeiro momento, que não casa muito com o Átila, mas é exatamente o sentimento de revolta e de isolamento do mundo que faz dela a eleita)

Xisto:

What I'm Made Of, do Crush 40 - hahahaha, o Xisto é o personagem mais injustiçado do livro e acabou com música de trilha sonora de jogo ruim. Chega a ser engraçado.
(mas, enfim, é angst, é revoltada, e é desafiadora. Tudo o que ele se tornou)

Gustavo:

Time Is Running Out, do Muse
(dark, um pouco macabra e com um toque de emo. E com um bando de morte. Se isso não for Gustavo, não deve existir algo que seja)

Ricardo:

Takes Me Nowhere, do The Offspring
(um tanto de sofrimento sem ser exagerado com uma dificuldade de se encontrar e descobrir quem realmente é. Coube direitinho)

Johanne:

Stuff Is Messed Up, do The Offispring - vale a pena dar uma olhada no clipe, aliás
(hahahahaha, o título da música é genial. Informal, escrachada e falando que tá tudo se acabando. Consigo até ver ele gritando "la la la la la". Cavalo, um dos animais apocalípticos, prazer)

Angra 01:

Nemo, do Nightwish
(piano e tragédia. A música inteira é auto-explicativa da Angra. É até absurdo a semelhança)

Angra 02: se algum dia o passado dela aparecer detalhadamente em flashback, já tem trilha.

Kelly Brown, do The Earlies
(mais piano. Mas dessa vez uns drops e batidas imitando tiquetaquear de relógios. Melancólico, perturbador e incomodador)

Alexandre e Ana:

Hybrid, do SAWA
(é o tema de quando eles estavam juntos e bem, claro. Só fofura)

Alexandre e Átila:

A Lot Like Me, do The Offspring - e cá está a prova que eu tilha essa relação por MUITO tempo
(o tema que atormenta Alexandre por Devassa inteiro. Quando ele tá no fundo do fundo do poço. Vale a pena checar a letra)

Alexandre e Xisto: fiquem tranquilos, valores cristãos, não é nada homoafetivo

Ares, do Bloc Party
(acho legal como tem tudo o que os dois passaram. Raiva, rivalidade, uns xingamentos, alguma coisa confusa nesse meio, depois um certo companheirismo que foi se desenvolvendo com o tempo. Tem até uma pausa meio afetiva no meio da doideira da música XD)

Átila e E:

You're Gonna Go Far, Kid, do The Offspring
(teatral. Manipulação, mentiras e um enganando o outro. E como um tinha que sempre contornar o outro pra conseguir o que queriam. Bem "Dance, fucker, dance!")


Temas de livros:

Trailer da trilogia inteira:

T.W.I.S.T.E.R. Remix, do SAWA
(vão me julgar por ser J-pop, mas beleza. Essa música é boa por ser cheia de pausas, mas sempre imagino os eventos e lutas sem o Átila até o ponto que tudo pausa e ela anuncia "Ladies and gentleman", daí ele aparece 8DD)

[GERAÇÃO] Trailer 01: Versão Dark

Sonne, do Rammstein
(era uma vez o Nícolas fazendo aulas de alemão. Eis que todos os exercícios de escuta eram feitas com músicas do Rammstein. Consequência? Isso.
Ele conta até nove várias vezes durante a música, falando que no dez o Sol -- Sonne -- virá. Tente ser eu e não imaginar os oito times de Guardiões novatos a cada contagem com o nono grupo sendo o de Átila. Tente!)

[GERAÇÃO] Trailer 02: Versão Upbeat

Vertigo, do U2
(novamente tente ser eu e não querer dar importância a essa música quando ele fala que "The jungle is your head". Fora que mais pro final tem três "All of this, all of this can be yours", um pra cada garota que tá atrás do Tiago, finalizado com um "Just give me what I want, and nobody gets hurt". Essa música se empurrou pra mim)

[GERAÇÃO] Trailer 03: Versão de Apresentação

The Lamb and the Lion, do The Mae Shi
(é uma música bizarra, sim, mas é perfeita. Tem batidas repetidas que vão mudando ao longo da música. Começa com batidinha, depois vira batidinha com sopro, depois batidinha com sopro e canção, daí batidinha com sopro e canção e coro, seguida de coro dramático e finaliza com batida rápida e forte. Cada trecho dá pra ir mostrando os locais de Aeternia, daí os grupos, daí os Guardiões, daí o pessoal de fora e colocar o Átila no coro com as lutas mais fodas nas batidas fortes do fim. Como não fazer isso?)

[GERAÇÃO] Trailer 04: Versão Cinemática

The Dark Empire 2.0, do The X-Ray Dog
(ah sim, não poderia não haver um trailer dramático, com coro no fundo e aquele som de coisa indo e vindo. Mas esse ganha dos outros pela introdução pausada e rítmica. Dá pra mostrar os grupos a cada batida. Depois, na calmaria que vem a partir dos 0:50, tem batidas de coração perfeitas pra fazer o Jahanne aparecer, seguido de sons de máquina no 1:01, pra Lumna no Maquinário. Sinto muito Lacrimosa, o oscar vai pra Dark Empire 2.0.
Fora que ter Elementals usando o 1.0 e Aeternia o 2.0 é bem legal)

[GERAÇÃO] Aparição dos tutekans pela primeira vez (ch04):


Simplicidade, do Pato Fu - primeiros 50seg
!, do Pato Fu - sim, é ponto-de-exclamação o nome da música
(precisei de um mashup nesse justamente pra mostrar a bizarrice e como Aeternia é etérea sempre. É Praia de Dunas, é calmo, hawaiiano, quase incrível. Depois aparecem as criaturas negras, nojentas e assassinas do nada e começam a arrancar sangue deles. Tem coisa melhor que a ! pra acompanhar?)

[GERAÇÃO] Final do ch14, a luta contra a Búfalo:

Mama, do My Chemical Romance
(o álbum inteiro deles é uma parada, a Black Parade. E os personagens estão no Maquinário aquele capítulo, num parque de diversões. Mas é macabro. Coisas voam na direção deles e o parque se torna uma arma. Aí que essa música entra. A letra não é exatamente cabível, mas a batida é ótima. O final que fica rápido e desesperado é lindo pro Tiago atacando a Búfalo em cólera desenfreada, só pra ser derrotado no fim)

[GERAÇÃO] Abertura do ch16, quando estão fugindo do Cavalo:

Desire-full-eyed Creature
(tem gente correndo e tem um coisa perseguindo. Não dá pra ficar mais desesperado que isso @__@)

[DEVASSA] Abertura do ch03, aparição dos tutekans amarelos:

Rotomusic de Liquidificapum, do Pato Fu - parte final da música
(essas coisas bizarras sempre me pegam, por algum motivo. E, se bem me lembro, o capítulo 03 de Devassa começa com o narrador falando de um conto de tutekans que foram criados. Essa história de conta casa bem com essa música suave que fala de sangue. Até que uma hora as coisas saem de controle e não dá mais pra ser suave e bonitinho, é a hora que os ataques começam. Thank you very much)

[DEVASSA] Ch04, que os versos de abertura são da música, inclusive:

Half-Truism, do The Offspring
(essa fez o caminho inverso. Essa é, by far, minha música favorita da minha banda favorita. Então peguei o capítulo 04 de Devassa e coloquei essa temática nele. "If we don't make it alive, it's a helluva good day to die" traduz muito bem o capítulo inteiro)

[DEVASSA] Abertura do ch10, na sala do Doutor Judas:

Memory ~at home~, de Fruits Basket
(a trilha de Furuba é uma porcaria, pra ser bem sincero. Com exceção dessa. Não tem como escutar essa música sem imaginar um flashback, numa casa antiga, com uma criança meio tristonha, OU TEM? XDD)

[DEVASSA] A parte final do passado na Flávia (ch10), que deu inspiração à violência do fim:

Kim, do Eminem
(violento e perturbador. Não é bem uma música, mas sim uma desculpa pra violência gratuita. Mas tente escutar isso sem ficar mal. Eu precisava de inspiração pra um passado trágico pra justificar o trauma da Flávia, foi quando eu dei de cara com isso)

[CINZAS] Créditos finais dos epis do animê (sim, eu sei):

Talons, do Bloc Party
(tem tudo que o um tema de fechamento precisa: drama, uma melancolia e umas passadas fortes. E tem tudo o que um tema de Aeternia precisa: um arzinho dark e batidas pausadas. Fora que a letra dessa música é incrível. E casa muito bem com o tom que eu quero dar pra Cinzas.
"I've been wicked. I've been arrogant.")

[CINZAS] Eventos que precedem a batalha final:

Liberi Fatali, de Final Fantasy VIII
(nunca encostei minha mão nesse jogo, mas fui na VGL. E minha nossa, cantaram essa música ali. Foi amor à primeira escuta XD
Fora que ela é perfeita pro que vai acontecer antes do final de Aeternia, quando tudo tá caminhando pro final, tudo tá se alinhando e todo mundo que precisa estar em lugares estão chegando. Mais que isso é spoiler chato)

[CINZAS] Batalha final:

Showdown
(ah, o final. A música que vai acompanhar o fim de tudo. Sim, tenho o final básico de Aeternia na cabeça e todas as vezes esse final tá moldado nessa música. Não vou me alongar muito nela pra não dar spoilers, mas taí)

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Caim


É sobre ela, em volta dele.


Discipline, discipline, disappearing
Echoing, echoing, exiting
Disappearing, discipline, disappearing
Nothing there, nothing works, nothing matters
Every time, every time, I look over
Everything, everyone, every time
Family, family, shredded by
Liberty, liberty, literally

You can be, you can be, you can see
Eventually, literally, instantly
History, history, disappearing
Echoing, echoing, exiting
You look up, you look over, you can see it
Disappearing, disappearing, instantly
Literally, literally, telling them
They'll be different
They'll be special
They'll be better

This self-obsessed sinner
I hear he loves to drink
This self-obsessed sinner
I hear he loves a fight

É sobre uma flor e um vaso, ou uma flor que pensa ser vaso para o que pensa ser uma flor.

E muito sangue seco.

terça-feira, setembro 15, 2009

Sobre os livros... [3]

Lembram desses posts? Estão de volta =)
E sempre em dupla =D


Flores numa garrafa de cerveja é o nome do meu próximo livro oneshot, o sucessor de Elementals, portanto. Faz um bom tempo que eu queria me propor a escrever algo desse tipo, mas nunca me achava com maturidade suficiente. Tanto mental quanto propriamente de estilo. Não que eu ache que as consegui ainda, mas vou aceitar o desafio.

Antes de mais nada, vale ressaltar que a ideia desse livro me acertou do nada faz um tempão quando eu vi uma das cenas no primeiro minuto desse clipe da Kate Nash.

Foundations - Kate Nash
[sorry dudes, o blog tá travando com o vídeo ¬¬]

Esse foi o clipe que me fez gostar dela, correr atrás do CD inteiro, desmembrá-lo e querer pelo próximo. As músicas em estilo historinha dela é muito interessante e o sotaque dá um toque engraçado e que sempre ferra com o meu entendimento lyric-free 8D
Enfim, sim, a cena que ela coloca um ramo de flores numa das garrafas de cerveja.

A história vai se passar em torno das quatro personagens principais: Rosa, Margarida, Hortência e Violeta. Sim, cada qual com um nome de uma flor, cada qual em uma fase diferente da vida, com suas personalidades e problemas. E todas elas passando pelos problemas e sofrimentos da vida.
A única coisa que têm em comum é a residência: as quatro moram no mesmo prédio da capital paulista, embora em andares e apartamentos distintos. Mas sabem como o destino é engraçado, né? Ele adora jogar suas linhas nos ombros das pessoas. E quem sabe a amizade que vai surgir não as ajude de algum modo...? =)

Sim, é um livro completamente normal. Nada de poderes especiais, magias, dominação mundial, vilões ou mundos alternativos. Somente o plano do real, alguma vontade de brincar com nomes e dores mundanas. E escrita em primeira pessoa.
Sim, é algo completamente diferente do que eu tô acostumado. Completamente.

A personagem principal é Rosa, e vai girar em torno do evento inicial. Ela acabou de receber uma carta de alguém que preferiria esquecer, mas de alguém que cedo ou tarde teria que encarar pra que sua vida possa seguir adiante, depois de tantos anos de fuga. Rosa é a única que conversa diretamente com o leitor, e sabe que é a personagem principal do livro, o que dá um ar de graça em toda a escrita.
Alternamos às demais personagens, com seus pensamentos e questionamentos, da mesma maneira que eu fico brincando com a linha do tempo em Aeternia. Margarida, que está prestes a encontrar alguém importante. Hortência, que não sabe mais como segurar seu castelo. Violeta, que não sabe mais pra onde puxar sua vida, que insiste em querer afundá-la.

Cada uma tem um estilo de escrita diferente, por terem idades e personalidades diferentes, então temos mais um desafio ao pobre Nícolas. Mas é algo que eu quero experimentar.
Não tenho planejamento algum, apenas um arquivo de duas páginas de Word dando um background de cada uma das mulheres, com algumas anotações nas bordas do estilo de escrita de cada uma. Fora isso, nada com história determinada ainda.
Esse vai ser algo que eu constantemente estarei escrevendo e reescrevendo, voltando, mudando e alterando aqui e ali, certeza. O Projeto Secreto já funciona assim, anyways XD

Estou no capítulo 1, e já estou com bastante dificuldade. É complicado escrever sobre coisas mundanas em um estilo análogo, mas diferente do seu, mas não vou desistir.
É o típico livro que vou ter que ler muito antes de escrever. Quero mais Clarice! o/

Sim sim, aqueles posts de flores que apareceram mensalmente no blog são delas. Apresentando cada uma do seu jeito, cada qual com seus problemas. Como se fosse um preview das personagens centrais, começando pela principal, claro.
E, aos que têm boa memória, eu mencionei no post do Leak, do ano passado, que tinha uns bebês que estavam prestes a nascer, que trariam banalidade ao instituto dos palavrões, né? =)
Voilà! Eis o tanto de tempo que eu tô com Flores no latente.

A premissa do título é a mesma que você consegue quando junta todos os posts de flores do Chaos III: existem pessoas especiais no mundo. Pessoas que são verdadeiras flores, em cheiro, cor e beleza. Mas a realidade é podre e decadente, então, sem ter onde crescerem, tais flores são fadadas à morte lenta e gradual. Elas não tiveram outra escolha senão crescerem em garrafas de cerveja, usando-as como vasos, drenando sua amargura em si e tentando crescer ainda assim.
A vida é uma luta constante. Não importa se você é especial ou uma garrafa, você vai ter que lutar se quiser sobreviver e encontrar uma fresta de sol.

GO!

terça-feira, junho 16, 2009

Hortência

Ela é casada. (ainda que mulher)
Ela possui duas vidas. Duas vidas completamente diferente que são construídas em momentos diversos, ora em simultaneidade, ora em revezamento. Seu amor é enorme e não pode ser medido por simples atos e ações. Não, a grandeza de seu sentimento ultrapassa a barreira do fático, encontra a sua própria alma. Seu amor é entrega incondicional e completa.

Essa é a sua primeira vida: a entrega.
Entrega, também sinônimo de sacrifício. Seu mundo é constituído de uma pessoa, uma pessoa que não mais enxerga como marido ou amante, mas sim como um humano celestial capaz de lhe prover a felicidade com o mais simples dos gestos. Assim é a sua natureza: simples e feliz. Gosta de ouvir o som de sapatos na madeira, do cheiro da chuva em terra molhada e do piscar selvagem que precede o barulho estrondoso do trovão. Mas seu marido possui a maior concentração desses pequenos momentos jubilosos de felicidade comprimida. Sua fala doce e masculina, somada ao seu porte elegante, desafiador e alvo são os dois melhores aspectos.

Entregara-se e ele sem hesitação, com a certeza teimosa e resoluta. Não apenas entregara a si, mas também a sua vida, tornando-se um satélite sem lados escuros. O sacrifício do que tinha planejado era uma barganha, uma pechincha em oposição à sua torrente de fantasia. Claro, sempre quisera filhos. Gostava do som doce das vozes, da alegria e da vida que os pequenos sabiam transmitir com tanta veracidade (e que se esvai a medida que a visão se torna mais clara), mas seu marido não compartilhava de mesmo anseio. Eis o sacrifício, a entrega. Ela não mais se pertencia, sua alma não estava mais em seus dedos. O que estava em seus dedos era a trincada e desgastada fundação de sua verdade, de sua vida.
Animais. Como os adorava, em especial gatos. De certa forma, os gatos lhe lembravam de seu marido. O porte elegante, a certeza nos atos e a precisão angular e centimetradamente calculada de suas amplitudes. Sua entrega significava renegar igualmente esta disposição, já que ele não os queria.

Essa é a sua segunda vida: o desejo.
Por mais que quisesse se entregar e amá-lo incondicionalmente, sob todas as adversidades que vinham com mais e mais força e brutalidade com o passar dos ponteiros do tempo, não conseguia impedir-se de desejar, de ansiar por tudo aquilo que desejava ter.
Sua segunda vida era obscura e ilícita. Vivia-a nos bastidores, quando ninguém a via. Era uma vida preciosa e feita de areia. Tocava-a com cuidado, manejava-a com carinho e reverência, temendo que escapasse lentamente de sua palma caso respirasse muito forte.

Era uma caixa. uma caixa pequena, inofensiva e feita de ouro. Fotos, imagens, recortes... todos seus desejos escondidos, os filhos que nunca teve e os gatos que sempre sonhou estavam todos ali, olhando para ela e rodeando-a com seus sorrisos e vidas anônimas. Era uma vida incompleta, débil e incrivelmente dolorosa, mas mantinha-a viva. Dava forças para viver sua primeira vida, aquela que ela não se arrependia, mas que lhe fizera diversos buracos em seu ser.

E a arte escondida de ser artista plástica. Seus quadros repletos de cupidos e querubins, sem mencionar as esculturas eretas e felinas que decoravam como pesos de papel, molduras de retratos e abafadores de livros. Silenciosamente, ela se cercou a si e a seu mariodo de sua segunda vida, de forma implícita, solitária e gananciosa. Sua segunda vida queria invadir a primeira, numa entativa desesperada e sufocada de se tornar real, de transgredir a linha da realidade e do sonho.

Amor. Esta é sua palavra-chave. Unilateral, a segunda.
No final, é uma flor tentando sobreviver na garrafa de cerveja que encontrou.
[o ciclo terminou. apenas uma lua resta]

terça-feira, maio 19, 2009

Violeta

Ela é uma moça. (quase mulher)
"Eu sou forte". Isso seria mais que um mantra, talvez já não fosse mais um mantra, mas sim um estado de espírito, uma oração silenciosa. Uma oração tímida e silente, sussurrada por lábios vermelhos como sangue e gélidos como chuva. Em desespero, é uma simples frase que precisa ser repetida diversas vezes. Reiteradamente, como se sua repetição fosse capaz de fazê-la permear em seu ser, invadir suas entranhas e lá se instalar. Sabia que não era forte, mas precisava ser, tinha que ser. Sua existência dependia dessa necessidade.

Não conseguia mais criar vínculos. Sua vida até aquele momento estivera repleta de tragédia. Seus sorrisos eram formados pela pressão dos lábios e uma risada fraca e estridente, como se estivesse manchada. Era um sorriso, uma risada que tentava ser livre mas não conseguia. Não conseguia se desvincilhar do choro. O choro já parecia tão natural em seu rosto que rir parecia ser algo que contrariava sua natureza. Sua natureza é a amargura.
Seus vínculos eram fracos e diluídos, como uma imagem formada na fina camada da água. Qualquer movimento renderiam tais laços turvos e esquivos, fugitivos.
Eram covardes, esses vínculos.

Tinha uma grande profissão. Sua grande profissão, que lhe trazia frutos e a permitia viver era importante e lhe tomava todo seu tempo, mas era boa naquilo que fazia, muito boa, inclusive.
Fingir. O que são profissões senão papéis que indivíduos desempenham para conseguirem encontrar um meio de viver...? A profissão dela era fingir. Seus sorrisos, palavras e gestos fingidos eram tão fluídos e perfeitos. Seu andar que dançava, escorrendo e vazando de mesa a mesa (afinal, sua segunda profissão era garçonete), seu sorriso brilhava e ensejava empatia, sua voz era rápida e suave, convidativa, vendedora e profissional.
A quantidade de creme emulsionado que vinha no café fraco e amargo era extravagante. E a cereja de tão vermelha e simétrica lançava olhares de desafio a quem se interessasse.

Era escura, sua vida. Tons sobre tons de sombras e penumbras eram seus rastros, suas pegadas. Sua mente parecia carecer por férias, pedia por algum descanso, alguma liberdade. Mantinha-a presa e contida dentro da caixa que criara, intitulada de realidade, necessidade. Força.
Sua mente se rebelava. Ora em seu apartamento, ora em seu serviço. Obrigava-a a vomitar tudo que mantinha guardado, tudo que tinha medo que os demais vissem. Sua fraqueza. Tabu. Palavra suja, agourenta essa... fraqueza. Ela era forte, ela era.

Sentia dois apres de olhos em sua nuca. Dois pares de olhos grandes. Um deles eram velhos e cansados, olhavam-na com uma mistura de desprezo e abandono, mas ao mesmo tempo com um desejo contido e silenciado, como se clamasse por piedade. Eram olhos de vítima que pediam para que parasse de ser agredido. O outro par de olhos era ainda mais cruel. Eram olhos amorosos. Olhos de amor... pesados, muito pesados. O peso do amor era insuportável, um fardo terrível. Aqueles olhos alfinetavam-na pelas costas, desejando bem a ela, querendo o melhor a ela. O amor egoísta e mesquinho, que tudo devora, que tudo consome. A corrosão lenta e sutil... bem aquela que começa pelos lados de forma indolor.

Mas ela era forte. Ela é forte. Isso sim. Ela é forte.
Ela é uma flor. Que apresar de ter crescido numa garrafa de cerveja, é forte.
[de tantos falecimentos, seu nascimento ocorrerá em breve]

domingo, abril 26, 2009

Rosa

Ela é uma senhora. (mas mulher)
Sua existência é escura, sombria e inodora. Sua casa é seu casulo. Um casulo completamente oco e sem vida, como um ivólucro de solidão e dor. Sua companhia se dá através dos estalos do calor e estampidos de frio na madeira pesada. Os sons que produzem advem do surdo teclado iluminado por suas contas de acessora e seus velhos grafites rabiscando as inúmeras tabelas de seu emprego.

Seus olhos são velhos e cansados. Enxergam o mundo como se fossem quadrados. O mundo, ah!, este constituído de pequenos quadrados, uns vazios, outros preenchidos, tal qual as células das suas tabelas que constituem sua vida. Sabia que, se tivesse vontade, poderia esticar suas mãos e, com um golpe de seu lápis, preencheria as células restantes com suas fórmulas e tudo faria sentido. Mas... qual seria a graça do mundo se este estivesse completo e sem falhas?
Mas do que seus olhos gostam mesmo são dos carros. Eles correm e vão a lugares. O perigo e o prazer da velocidade enchem sua mente de temor reverencial. Se não fosse pela enfermidade de sua alma e o aleijamento de sua mente, teria viajado bastante. Seus olhos poderiam ter tocado outros cenários, outras células.
Talvez, até mesmo menos cansados.

Embora seus olhos fossem cansados e tivessem fadiga de piscar, o mesmo não acontecia com suas pernas.
Andar. Andar no sentido intransitivo, claro. A banalidade é seu refúgio. Percorrer alas do supermercado da esquina, atravessar catracas de ônibus, passear pelo parque ridículo do bairro, ir até o banco para entregar todos seus formulários e longas tabelas. Gostava de andar. Era fácil e seguro. Ainda que seus dedos estivessem mechucados de tantas quinas e pontas que encontraram na vida, eles não desistiam, tal qual a estupidez dos metrônomos, que não cansam de bater ao mesmo ritmo eternamente.

Seu emprego é o único motivo pelo qual mantem-se viva. Se não fosse pelo tédio e trabalho que exerce, sua vida seria completa, una e simples. Não teria preocupações, conseguiria desenvolver uma rotina que a transportaria à segurança do cotidiano e teria liberdade para gozar da arte de caminhar que tanto apreciava. Tinha pleno conhecimento que, no momento no qual não precisasse mais entregar seus formulários, preencher suas tabelas e angariar todas as suas fórmulas, sua vida lhe pertenceria. Seria dona do que quisesse. Estava ali, esperando que suas mãos finas e rosadas tomassem para si.
E então a verdade sairia do insconsciente para habitar seu consciente: não tinha motivos para continuar a viver. Seus olhos finalmente veriam a verdade, retirando-a do ventre da mentira, onde estivera tão confortavelmente adormecida durante todos os quarenta e três anos de sua gravidez.

Saberia, finalmente, a violência que carregava em seu interior. As responsabilidades tão frágeis que tinha despedaçado com sua indiferença. A vida que tinha se negado a permitir existir. A guilhotina afiada e invisível com a qual tinha decepado tantos e tantos sonhos. Seus e de outros.
Via-se sim, como uma rosa. Mas uma rosa diferente. Uma rosa sem cor, sem cheiro, sem graça e sem vida, mas repleta de espinhos. Espinhos lívidos, fortes e letais.
Não.
Preferiria a mentira.

Ela, assim como tantas outras, sofreu com a realidade. Embora flor, não encontrou onde crescer, senão no azedume de uma garrafa de cerveja.
[com o ciclo dos elementais no fim, outro há de começar]

segunda-feira, março 16, 2009

Margarida

Ela é uma garota. (a caminho de mulher)
É baixinha e magrela. Seus cabelos, seus olhos, sua maneira adolescente e organizada de andar não possuem nada de interessante. Ela possui uma existência borrada e diluída. É algo inodor e indolor. Passa pelos lugares como se flutuasse, presença estéril e fantasmagórica.
De longe, não se nota. Não se nota como ela carrega seus livros abraçados e amassados contra os peitos. Como caminha vacilante -- mas organizada -- em seus sapatos. Suas roupas não possuem nada de especial, são meramente pedaços de panos feitos para cobrir seus despudores. Um senso utilitário venenoso e ácido. Caem em seu corpo como forma de seguir sua inexistência existencial.

Não são feitas perguntas a ela. Ninguém se interessa em saber de sua vida, suas angústias e suas cicatrizes da alma. Sim, sua alma também é diferente das demais, ela a sente. Sente como se fosse algo sólido e incomodativo, sente sua alma como uma pedra presa dentro de seu sapato. A cada novo contato com o chão, com o real lhe dói. São seus passos. Caminhar lhe machuca, lhe desgasta, lhe faz cair.
Seus olhos também enxergam a realidade de maneira diferente. É até emsmo engraçado pensar a dicotomia que ela consegue ver através do ar, pairando ali, bem acima da cabeça de todos. A realidade fantasiosa que seu coração tende e teima em pintar, deixando o dia mais cinza ou mais azul do que deveria e a realidade trincada e empueirada que sua mente vislumbra. Via a manifestação da deteriorização ao seu redor... as folhas que caíam das árvores, as trincas que surgiam nas construções, a tinta que descascava, seus pertences que sujavam. Eram todos integrantes da extensa sinfonia do podre, inútil e inexorável.
Mas também havia uma harpa ao fundo, vibrando em sua mente, insistindo e resistindo futilmente a sua mente. Seu embate permanente, que insistia em colocar o todo como cíclico. Seu coração, que não precisava tocar no chão, que era passivo às dores da garota, insistia a mostrar sua puberdade em bater e bater, falando cantado que se as coisas caíam, novas nasciam, que tudo tomava novamente o seu lugar, que seguia indolor adiante. Dessa forma, novas folhas nasciam e a tinta se renovava, mais bela e sólida depois de um tempo. Essa era a natureza.

A cada novo passo, a cada novo pisar, uma imagem vívida explodia em sua mente, berrante e imperativa. A imagem que justificava seu abraço apertado em seus livros de graduação. Era a imagem dele, queimando em sua visão, embaçando-na. Ele estava lá, sempre presente, a relembra-la de seu motivo, de sua razão, do objetivo pelo qual ela escolheu se martirizar. Eram três livros que apertava contra si, e três livros grossos. Sólidos e pesados. A faziam encurvar por conta do tamanho do fardo que representavam.
Economia. Pois é. Economia não combinava nada com ela. Contas, possibilidades, margens e gráficos. Sofria e sofria para conseguir adicionar entendimento à matéria. Mas não desistia, muito embora sua vontade fosse aquela. O curso era longo e trilhado através do milho sacro, mas ela teimava em dar mais um passo com seus joelhos. Carregaria os livros, enfrentaria as aulas, duelaria com as provas. Isso tudo porque sabia que, quando entrasse pela porta de seu apartamente ele estaria ali, sobre sua cômoda, olhando-o através daquele visor binário.

Uma sonhadora realista. Uma eterna espera, paciente. Vítima vitimada vitimante. Alguém que vive cada dia engolindo sua dor. A dor jogada a ela injustamente. Vigiada pela ausência.

Mas, acima de tudo, uma flor, que não teve outro local para crescer, senão numa garrafa de cerveja.

[quem diria? há vida depois de elementals! quatro vidas...]